Os fascínios do underground
Segunda-feira, 18 de Maio de 2015
 

Antroforce, de SP, honrando o underground


Relendo alguns textos deste blog, bem como algumas resenhas minhas, percebi a recorrência do termo “underground”, que deve ser a palavra mais usada por mim sempre que escrevo. Assim, fiquei pensando nas razões para tal insistência e resolvi compartilhar com meus acidentais três ou quatro leitores. 

Em primeiro lugar, valho-me do termo sempre que quero aludir às cenas metal e punk, preferindo-o aos outros dois exatamente por ver ambas as cenas como parte de uma coisa só, apesar de todos os protestos e divergências quanto a essa unidade que ainda persistem de ambos os lados, embora mais três décadas de convivência e troca de experiências entre headbangers e punks, em diversos aspectos, sejam prova mais do que incontestável da sua permanente inter-relação. Dessa forma, para facilitar a minha vida, o termo que primeiro me ocorre é sempre “underground”, a fim de evitar essa segmentação desnecessária.

Em segundo, por si só, o chamado underground é, por diversas razões, cheio de fascínios para quem vive essa cena quase diariamente. Afinal de contas, desde os anos 80 que esse submundo da música vem parindo uma prole extraordinária, praticamente sem pausa, bem como uma coleção de histórias incríveis capazes de continuar surpreendendo velhuscos céticos como este escriba. 

Há algumas semanas atrás, por exemplo, fui a um show aqui em Florianópolis chamado Underground Attack, que trazia em seu cast duas bandas conhecidas – Axecuter, de Curitiba, e Battalion, de Itajaí – bem como duas formações das quais não tinha ouvido falar ainda – Antroforce e Harpago, ambas de São Paulo. E, puta que pariu, que show animal! A primeira banda, Antroforce, chegou detonando um speed/thrash oitentista sem muitas firulas, com letras em português, deixando estupefatos os presentes, pois a grande maioria deles também via a banda pela primeira vez. Do começo ao fim do show, o que se viu foi um sucessão de riffs feitos para bater cabeça e fazer aquela roda com a galera, o que de fato aconteceu. 

A segunda banda, Harpago, também veio com uma sonzeira forte, embora mais cadenciada que a primeira, mostrando um heavy/speed totalmente inspirado nas bandas nacionais das antigas, como Anthares, Astaroth, Azul Limão, Harppia, entre outras. O mais legal foi perceber a dedicação dos caras ao som e à aura oitentista, como se estes vivessem num mundo paralelo, indiferente às modas modernas que saturam o mainstream, trilhando uma senda anticomercial sem dar a mínima para sucesso e fama. 

Aliás, é bem isso mesmo que acontece: independente de tudo que está rolando “lá fora”, no mundo “normal”, essa galera continua a produzir sua música, seu visual, sua própria cultura e, com seus próprios meios, consegue atravessar o planeta, infectando todos os rincões desta terra, das Filipinas ao Paraguai, de Botsuana à Polônia, de Tóquio a Florianópolis. 

Assim, enquanto nas Filipinas a banda Deiphago surpreende com seu ultrabarulhento Black Metal, revivendo os primeiros dias do underground latino-americano, no Paraguai, o Master of Cruelty reedita o death/black dos tempos da dobradinha brasileira que marcou a cena com “Morbid visions” e “INRI”, dois clássicos absolutos do submundo. Da mesma forma, na África, o Wrust mostra que não limites geográficos para a selvageria sonora, assim como o pesadíssimo Ebola, na Polônia, e o avassalador Terror Squad, na Terra do Sol Nascente, os quais não deixam dúvidas de que a cena underground continua firme e forte como nunca, contrariando os mais pessimistas, que dizem que tudo isso morreu no começo da década de 1990. 

Ao mesmo tempo, voltando a Florianópolis, é preciso dizer que, mesmo sendo já mais conhecidas do que as duas primeiras bandas da noite, os veteranos da Axecuter e da Battalion representam bem a velha escola a música que contamina os porões das pequenas e grandes cidades mundo afora. Ambas as bandas chegaram com os dois pés, fazendo um show impecável, que agitou velhos e novos fãs de música pesada. O resultado é que não teve alma viva que não batesse ao menos sua cabeça durante o curto set de cada uma das bandas, comprovando que o underground, com muito ou pouca gente, com ou sem dinheiro, ainda é capaz de surpreender com sua energia e criatividade. É por essas e outras que eu ainda me arrepio e gasto meu sagrado tempo aqui, falando com meus três ou quatro leitores...


Master of Cruelty, do Paraguai


 
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Já disponível o Old Grindered Days zine # 2!
Terça-feira, 28 de Abril de 2015
 

A notícia vem desse grande batalhador do underground que é Glésio Torres, amigo de longa data e veterano na cena barulhenta: está disponível a segunda edição do zine Old Grindered Days, repleta das mais podres informações acerca de todos os tipos de extremismo sonoro e visual do meio metal/punk. Abaixo, seguem mais informações sobre como adquirir o material. Em tempo, é bom que se diga que o autor desse manifesto em prol da insanidade é também vocal e baterista da maravilha chamada SHITFUN. Apesar disso, pode entrar em contato com ele, que o zine vale cada centavo e o cara é inofensivo!




 
Postado por Cristiano Passos às 13:32Hs - Comentários (0)

LUVART - Preservando a essência do mal
Quinta-feira, 8 de Maio de 2014
 

Capa de Necromantical Invocation (2012)


Há alguns meses atrás, apresentamos aqui no Goregrinder a obscura banda LUVART por meio de uma resenha, mostrando o quanto o debut "Necromantical invocation", lançado pelo selo Hammer of Damnation, procurava ao máximo preservar intacta a essência maléfica presente no black metal. Agora, por meio do amigo Cannibus Hashcloud, trazemos aos leitores uma entrevista feita originalmente para o zine "Blasfêmias do espírito", que não saiu por motivos alheios à vontade de seu editor. Assim, para não deixar morrer o espírito negro que orienta a entidade Luvart, nem o incansável trabalho de Cannibus em prol do underground, resolvemos publicar aqui a entrevista que segue. 

01. Após um longo período de silêncio, você resolveu dar nova voz à banda Luvart... conte como se deu esse processo, e quais foram as mudanças de formação ocorridas até chegar a atual?

Brucolaques: A necessidade de dar prosseguimento a um trabalho que estava inacabado e que poderia oferecer experiências muito interessantes foi o fator crucial para que eu despertasse Luvart de seus 14 ininterruptos anos de sono e, em 2009, a centelha de que eu precisava foi lançada. O primeiro passo foi trazer as pessoas certas, com o comprometimento ideológico necessário e que mantivessem toda a identidade musical que Luvart sempre teve. Diante disso, nosso objetivo passou a ser o resgate de todo o ambiente vivenciado nos anos 90, para que pudéssemos retomar de onde havíamos parado. O resultado disso pôde ser visto na demo “Bestial Devotion”, de 2010, em nosso debut álbum, “Necromantical Invocation”, de 2012, assim como continuará a ser visto no que será produzido daqui para frente. Eu penso que falar a respeito de formações passadas é certo desperdício de tempo, então prefiro mencionar apenas quem compõe a Luvart, atualmente: Brucolaques (guitarra), Kholddun (vocal/teclado), Marbas (guitarra/baixo) e Blood Devastator (bateria).

02. O que significa “Luvart” e por que a escolha desse nome para a banda?

Brucolaques: Luvart é o príncipe dos anjos negros maléficos, o demônio do pecado incerto e ocasional, sendo esta entidade pertencente à terceira ordem dos anjos caídos da primeira esfera, chamados Tronos (que significa “anciãos”). Escolhemos este nome pelo fato do mesmo traduzir de forma exata nossos princípios e conceitos. Temos a identificação com o pecado porque somos dotados de uma vontade livre, a liberdade do indivíduo, que é nosso dom mais precioso. Nascemos e morreremos pecadores! Absorvemos e desenvolvemos os conhecimentos para nos aperfeiçoarmos, podendo depois levá-los tão longe quanto consigamos. Rebelamo-nos contra a escravidão espiritual e a mentalidade de rebanho, por ser uma destruição total para a sobrevivência, com suas crenças completamente irracionais e portais para deuses totalmente inativos.

03. Conte um pouco da história do Black Metal em sua cidade, como você começou a se envolver com o metal extremo e por que escolheu o Black Metal como forma de manifestação para a sua banda?

Brucolaques: A primeira banda com ideal Black Metal, surgida por aqui, foi o Necro Disseminator, seguida, alguns anos depois, por Abaddon, Luvart e Surtur. Tanto Necro Disseminator, quanto Surtur encontram-se inativas, atualmente. Anos depois, quando Luvart já havia encerrado as suas atividades, fundei a banda Saevus, que esteve ativa entre 1999-2007 e, junto conosco, veio o Demogorgon (cujo mentor reside nos EUA, hoje em dia). Atualmente, além de Luvart, temos o Chaos 666 como os principais representantes, do gênero, na cidade. Meu primeiro contato com o Black Metal, por assim dizer, foi em 1989, com o álbum “At War with Satan”, do Venom, mas meu envolvimento direto com o cenário se deu mesmo a partir de 1992, quando comecei a arquitetar a ideia de fundar uma banda como forma de manifestação de meus ideais. Ter desenvolvido habilidades musicais acabou se tornando a forma mais apropriada que encontrei para externalizar minhas visões dentro das artes ocultas, meu espírito interior e minhas vontades, resultando no que pode ser visto no Luvart, assim como o que foi desenvolvido no Saevus, anos atrás.

04. O que significa o Black Metal para você e quais são as bandas que se traduzem por Black Metal em sua opinião?

Brucolaques: Para mim é uma ferramenta de manifestação do Satanismo com o intuito de usar sons e vibrações para atingir emoções intensas, evocando e invocando as forças descritas nas letras para se alcançar uma profunda condição espiritual e a força interna que nos guia. É uma das mais altas formas de arte Satânica, a meu ver. Eu penso que o poderoso sentimento obscuro se faz presente em bandas como Mortuary Drape, Necros Christos, Murder Rape, Grave Desecrator, Varathron, Hetroertzen, Spell Forest, Vulturine, Burial Hordes, Watain, Ofermod, Patria, entre outras, que continuam destilando todo o seu veneno e poder para manter a chama e o caos, desta nobre arte, vivos.

05. O que pensa a respeito de todas essas subdivisões que existem no Black Metal moderno, como NSBM, atmospheric, depressive, pagan, heathen e outras?

Brucolaques: São apenas rótulos insignificantes e desnecessários!

06. Com quais bandas de hoje se identifica?

Brucolaques: Eu aprecio aquelas poucas que realmente partilham das mesmas visões que possuo e, obviamente, as trato como aliadas.

07. Cite seus cinco discos preferidos de Black Metal.

Brucolaques: Worship Him (Samael), Blood Ritual (Samael), In the Nightside Eclipse (Emperor), Storm of the Light’s Bane (Dissection) e Celebration of Supreme Evil (Murder Rape).

08. Um nome da cena.

Brucolaques: Eu respeito várias pessoas que fizeram e fazem algo importante, mas mencionar seus nomes é algo totalmente irrelevante, a meu ver.

09. Uma banda.

Brucolaques: Existem muitas bandas que foram importantes e relevantes para formar a base do Black Metal e, outras mais, para a manutenção do gênero, ao longo dos anos, como algo sério e ameaçador. Um nome apenas não seria possível simbolizar o gênero, em sua totalidade, pois várias foram as bandas e suas contribuições.

10. Um zine.

Brucolaques: Revelações Abissais zine é o melhor que tenho visto nos últimos anos, por ser um zine que procura enfatizar ideologia, que não omite a verdade, que não faz média com bandas ou selos quando analisa materiais em reviews. Seu compromisso é apresentar edições de qualidade, extremamente informativas e com bandas que realmente residem nas profundezas. Ele sim é o verdadeiro “arauto da má notícia”.

11. O que acha de teclados e vocais femininos no Black Metal? Você os utilizaria em suas músicas?

Brucolaques: Cada banda se utiliza de meios e artifícios que sejam úteis à sua proposta e quem sou eu para julgá-las. Penso que vocais femininos, líricos, não sejam algo compatível com a música de Luvart, devido à sua tonalidade mais suave e “angelical”, por assim dizer. Quanto a teclados, não vejo nada de errado em empregá-los desde que sejam bem executados e com propósitos úteis. Nós priorizamos a espontaneidade com o único intuito de qualificar ainda mais nossa Arte Satânica. Em nosso debut álbum há uma música chamada Pestifera Crucis, onde usamos piano e um coro. Em nosso próximo álbum, utilizaremos alguns coros e órgão, em algumas passagens de alguns de nossos ritos, para ser uma espécie de complemento aos mesmos.

12. O que pensa a respeito dos webzines e blogs de compartilhamento de arquivos? Você é a favor da facilidade de intercâmbio de sons que existe hoje em dia, ou prefere os tempos de antigamente, em que as fitas “cassete” eram passadas de mão em mão?

Brucolaques: Para ser honesto com você, não posso medir a credibilidade de um trabalho pelo fato dele ser impresso ou online. O importante é manter a responsabilidade e compromisso de se fazer um trabalho decente, pois existem zines impressos que não passam de lixo, repletos de perguntas clichês, mal elaboradas e português sofrível, o que dificulta até mesmo o entendimento na leitura, enquanto que existem webzines cuidadosamente bem feitos e informativos. Quanto aos blogs de compartilhamento de arquivos, não sou favorável. Não somente pelo fato de tornar o material acessível, mas porque o considero também um desrespeito com bandas e selos que colocaram tempo, energia, dinheiro e superaram dificuldades para gerar seus trabalhos. Além do mais, o compartilhamento de arquivos mata uma coisa que acho vital nos lançamentos: as informações extramusicais (letras, a arte do livreto que pode estar relacionada com todo o contexto do trabalho etc.). As pessoas precisam ter um entendimento geral do resultado final da obra e o mp3 apenas lhes dá uma pequena parte de tudo isso, que é somente a “música”. A parte visual é tão importante quanto à música, pois uma banda sem imagem é uma banda sem rosto. Eu acho que antigamente havia um maior idealismo, cooperação, respeito, busca por informação para o autodesenvolvimento e irmandade entre todos e, apesar das dificuldades, as pessoas eram mais ativas. A falta de informação que tínhamos sobre as bandas antigamente gerava um misticismo que fazia com que corrêssemos atrás para conhecê-las a fundo. Eu valorizo muito esta questão do misticismo porque ele faz com que as pessoas se dediquem mais, a saber, o que são as bandas de verdade, já que a inacessibilidade motiva a busca pela informação. Eu sou um grande conservador e acho que hoje em dia falta um pouco daquela velha convicção, respeito e paixão às novas gerações, essa vontade de manter viva a tradição.

13. Quantos shows realizaram com a Luvart até a presente data? Que tipo de evento vocês buscam participar?

Brucolaques: Até o presente momento, Luvart executou apenas quatro cerimoniais, sendo 3 deles no estado de Minas Gerais e, outro, em São Paulo (o primeiro e único fora de nosso Estado), sendo este último ao lado dos titãs Mortuary Drape e Mythological Cold Towers. Buscamos estar em eventos que tenham bandas com características e atitudes similares às nossas. Você jamais nos verá em eventos onde haja uma mistura de gêneros e público, ou mesmo em eventos que tenham associação com fins filantrópicos. Somos bem seletivos neste ponto, já que não temos o objetivo de sermos acessíveis as grandes massas ou vendermos nossos princípios e integridade satânicos. As pessoas devem ter a percepção de que o Luvart não é entretenimento, mas uma banda perturbadora, perigosa, e estamos aqui para lhes proporcionar algumas experiências espirituais obscuras, fazê-las refletirem e pensarem, não diverti-las.

14. Como será o próximo álbum de vocês? Quantas músicas, temas das letras, possível gravadora?

Brucolaques: Nosso próximo álbum se chamará “Rites of the Ancient Cults” e o mesmo retratará, através de uma perspectiva totalmente pessoal, os antigos cultos da mão esquerda, em suas letras. Posso dizer que em termos líricos, este álbum será ainda mais profundo, se comparado ao primeiro, pois nos vemos constantemente desafiados a superar nossa natureza escura e atingir a automaestria por meio da libertação do conhecimento interno ou esotérico, dentro de nossos individuais. Sua criação reflete o que sentimos em nossas almas, com o objetivo de criar uma tensão no ar quando energias estranhas são emanadas, apresentando novas obras de poder a serem reveladas. Serão gravadas 8 músicas e a gravadora responsável pelo lançamento do mesmo será a francesa Drakkar Productions, através de sua subsidiária, a Drakkar Brazil Productions.

15. Uma mensagem final...

Brucolaques: Eu agradeço a você, pela entrevista e atenção dada ao Luvart. Nós somos a Legião que se abriga na noite, conduzindo nossas vitórias sobre os que gostariam de negá-las.


Brucolaques, uma das mentes malignas que formam o Luvart


 
Postado por Cristiano Passos às 16:17Hs - Comentários (0)

Rebentos do underground
Sábado, 22 de Fevereiro de 2014
 

"Caos total", do Orgia Nuclear (ES)


Embora este espaço tenha começado com a intenção de resgatar bandas antigas do nosso underground, é impossível – pelo menos para quem não vive apenas de nostalgia, como eu – não observar a prolífica cena atual. Afinal de contas, as bandas se multiplicam nas periferias deste país, surgindo em todos cantos e com as mais diversas propostas. Desta vez, gostaria de falar sobre algumas bandas novas, cujas demos, ainda que tenham sido lançadas há alguns anos, mostram o poder de fogo da cena underground brasileira em amplo sentido, pois seus trabalhos mostram também a importância das distros e pequenos selos que vêm garantindo, em parceria, uma maior divulgação para essas bandas.

 

O primeiro nome que eu gostaria de destacar é o do GLAUCOMA, banda de Manaus que pratica um thrash metal vigoroso, com uma boa dose de death metal, bem ao gosto dos oitentistas. Na verdade, logo de cara, ao ouvir a demo Civil War (2011), o que vem à mente é aquela sonoridade clássica de bandas como Mutilator, Dorsal Atlântica e Sepultura dos primórdios, ou seja, uma sonzeira de arrepiar o couro! Os vocais de Adelson Brandão lembram realmente a velha escola de Max e Carlos Vândalo, inclusive na cadência, bem ao estilo do death/thrash metal da década de 1980, sendo obrigatório ressaltar também a presença da crueza e rispidez tipicamente hardcore, que podem ser sentidas na raiva que o vocalista busca transmitir. A demo, lançada com o apoio do selo Anaites Records, de Fortaleza, contém apenas 6 sons, dentre os quais eu destacaria “Civil war”, “Apocalypse” (que começa mais cadenciada e depois desce o cacete!) e “Sentido opcional”, que mostra o quanto a língua portuguesa, quando bem explorada, se encaixa no metal tão bem quanto o inglês. A seguir nessa pegada, espero que o Glaucoma possa apresentar em breve um novo trabalho, pois talento pra pancadaria não lhes falta.

A segunda banda da lista também vem de Manaus, cidade que tem uma cena muito forte, representando muito bem a região Norte, que, diga-se, é a região de onde saiu a primeira banda brasileira a gravar um disco de heavy metal, em 1982! Formada por Afrânio Pires (vocal, também baixista da excelente Brutal Exuberância), Natha Hate (bateria), Elderson Oliveiro (guitarra) e Henrique Nascimento (baixo), a EXTREMAMENTE TOSCO vem com a Demo Promo 2011, que traz 9 sons dominados pelo peso e marcados pela indignação, algo que pode ser visto nas suas letras. A propósito, todas são vociferadas em português também, apresentando um conteúdo bastante crítico e realista, que soa muito bem ao meu cérebro punk, como se pode ver em “Demagogia”, “Olhos da desgraça” e “O amanhã é o ontem”. Contudo, nem só de crítica social vive a Extremamente Tosco. Há espaço também para a poesia (“A origem do bom fluído”), para a reflexão sobre a arte e o espírito louco de Van Gogh (“Corvos no trigal”) e para a diversão metálica (“Tattoo, cerveja e metal”), mostrando uma visão de mundo ampla e inteligente. Quanto ao som em si, sai debaixo, porque a porrada come solta do começo ao fim! É death/thrash metal na veia, acrescido de algumas benéficas influências de metal tradicional, principalmente nos solos de guitarra. Aliás, apesar do adjetivo “tosco” do nome, a banda executa muito bem suas canções, que são bem trampadas, e a gravação está excelente, bem acima da média do que se espera para uma demo. Todas as músicas são excelentes, com destaque para “Corvos no trigal”, cujo andamento lento e hipnótico arrasta consigo o ouvinte para o universo do pintor holandês, “Demagogia”, pela pancadaria soberba e pelo refrão objetivo e contagiante, que faz todo mundo querer cantar junto “Vermes canalhas/vão se fudê!!!”, assim como a porrada de “Pérfida ilusão” e a empolgante “Tattoo, cerveja e metal”. Em resumo, é um trabalho altamente recomendável de uma banda que promete muito ainda!

Para quem curte um som mais voltado ao gore/grind com fortes raízes no death metal, com direito a blast beats e piggy vocals, a terceira banda da lista se chama SADE e vem de Fortaleza. Segundo Necrosadic, a princípio o Sade, formado em 2010, é um projeto paralelo dos membros da banda speed/thrash Carcará, sendo que 3 dos seus membros fazem parte desse grupo (Sodomizer, Dilacerator e o já citado Necrosadic), aliados à força do vocalista Depravator. Aqui, porém, diferentemente de sua outra banda, os caras apostam numa postura mais agressiva, misturando elementos de sadomasoquismo e anticristianismo que fazem lembrar a banda catarinense Osculum Obscenum, ao menos em termos visuais. Quanto ao som, a demo “The gore tantric sadism” (2012) traz, além de uma puta capa, 7 porradas em forma de música, mais uma intro que prepara o ouvinte para o caos subsequente. Todos os sons seguem uma linha altamente coerente com a proposta da banda, mesclando peso extremo, partes rápidas, vocais raivosos e alguns andamentos mais “lentos”, digamos assim, mostrando as tais raízes death metal do Sade, principalmente daquele deathzão bem old school, com influências de Autopsy e Master, bem como da escola sueca, da qual podemos citar Grotesque, Unleashed ou Dismember. Entre esses sons, fica difícil escolher quais se destacam, até pela consistência da proposta da banda, mas os que me chamaram mais atenção foram “Sade”, “The last supper”, “Obscene in the extreme” e “Ejaculating on the face of Christ”, embora os outros também sirvam para ferver o sangue de qualquer maníaco por música extrema. Altamente indicado para quem curte uma paulada gore/death metal regada a muito S&M, sangue e tripas! 

 

Para finalizar, devo apresentar a banda capixaba ORGIA NUCLEAR, cujo material – o fudido “Caos Total” (2013) – embora catalogado como ep, tem todas as características de uma demo. Aliás, uma demo bem produzida, diga-se, com capa em papel grosso, encarte colorido, com letras e fotos da banda e cd-r adesivado. Quanto ao som em si, Hellthrasher Maniac (baixo e voz) e Pesadelo Nuclear (guitarra), aliados ao batera Gabriel Bitch Hunter, que deu uma força na gravação, trazem aqui uma sonzeira que faz o ouvinte voltar mais de 25 anos no tempo, indo parar direto no final dos anos 80. Na real, o som lembra muito os primeiros discos do Sodom, recheado de referências a outras bandas da mesma época, criando uma avalanche sonora perfeita para o heabanging. Os vocais de Hellthrasher também lembram o velho Angel Ripper de “In the sign of evil”, ou seja, são agressivos, guturais e sujos, aspectos que são evidenciados por alguns efeitos de estúdio, como reverb e eco, que também nos transportam para a época em que bandas como MX, Cova, Blasphemer e Necromancia gravavam o clássico “Headthrashers Live”. A propósito, as duas faixas ao vivo presentes nesta demo mostram uma sonoridade bem semelhante ao da clássica coletânea. Por falar nas músicas da demo, todas seguem uma linha bem crua, com bases simples e eficientes e sem muitas firulas técnicas, como também era de se esperar de uma banda com os dois pés no metal oitentista, mas eu destacaria “Caos total”, “Maníaco sexual”, “Noite perdida” e “União hellthrasher”, que deve ser um hino nos shows da banda. Enfim, o Orgia Nuclear é mais uma boa banda do nosso cenário e que merece ser acompanhada com muita atenção pelos maníacos por som old school.  Em tempo: após a gravação da demo, a formação mudou completamente, restando apenas Hellthrasher da formação original. 

Enfim, como havia dito no início deste texto, é vasto o panorama underground brasileiro e, por isso, ainda temos muitas outras bandas a comentar por aqui. Vale ressaltar, entretanto, que isso se deve ao esforço das tantas bandas boas que se acotovelam no submundo em busca de um espaço ou simplesmente para fazerem o seu som, bem como dos pequenos selos, como Anaites, Metal Reunion, Underground Brasil Distro, Vomito Sangrento, Cianeto, Black Forest, Desgraça, entre outros, que ajudam a concretizar o resultado de tanta dedicação ao som pesado. 


Extremamente Tosco, representando a cena manaura


 
Postado por Cristiano Passos às 15:32Hs - Comentários (0)

  O underground, em qualquer parte do mundo, conta com personagens inigualáveis, seja pela sua luta em prol da cena, por ter tocado em diversas bandas seminais, por ter atuado em zines, pequenos selos ou distros, ou por ter feito tudo isso ao mesmo tempo. Esse é o caso de Nelson Augusto dos Santos, um desses personagens da nossa cena que, por estar na ativa desde o início da década de 1980, conhece muito da cena nacional e estrangeira, tendo vivido-a intensamente em bandas como Death Angels e Desecrator, por exemplo, e no zine/selo Rotthenness, responsável por diversos lançamentos entre 1990 e 2003, como Necrose, Sarcastic, ROT e Krisiun. Atualmente, Nelson ainda milita no underground com uma distro própria e com sua banda noisecore New York Against Belzebu. É sobre um poouco de cada uma dessas coisas que fala a entrevista abaixo.

1. Olá, Nelson, tudo bem? Primeiramente, muito obrigado pela tua disposição em participar desta entrevista. Bem, quando comecei a escrever aqui neste espaço defini sua proposta básica, que é a de resgatar histórias, pontos de vista e informações sobre a velha guarda do underground brasileiro, principalmente. Você é um veterano batalhador do underground, certamente. Então, conte-nos quando exatamente você começou a se envolver com a cena e como foi esse envolvimento. 

R: Comecei a curtir rock antes do KISS chegar ao Brasil, não lembro a data, talvez 1982. Qdo o KISS veio ao Brasil eu já queria ir ao show, mas não fui.  Um amigo da classe me passou uma fita com Aerosmith, AC/DC, Picture,  Krokus e outras bandas. Eu só conhecia Pink Floyd, Genesis, YES, Led Zeppelin e Black Sabbath antes disso, mas não sabia que existia um mundo cheio de bandas mais pesadas ainda, achava que apenas essas bandas faziam som pesado.  Aí, pirei e fui correr atrás de mais bandas pesadas.  

2. Todo mundo que curte um som underground costuma lembrar da primeira banda, do primeiro disco ou fita que ouviu. Qual foi a sua/o seu? Além disso, todo fã de som extremo também costuma lembrar com facilidade do disco ou banda que mudou seu ponto de vista e o conduziu às profundezas do som mais caótico e pesado. Sendo assim, qual seu divisor de águas nessa área?

R: Essa primeira fita que falei com certeza me marcou, mas o disco foi o HOLY DIVER, do DIO. Comprei ele no antigo MAPPIN, loja de departamentos no viaduto do Chá, aqui em São Paulo.  Aquelas bases de guitarra aliadas com o peso e a estrutura das músicas eram e são foda até hoje quando ouço.   Outro que marcou muito foi o Show no Mercy, do Slayer. Também teve uma fita K-7 muito mal gravada do Venom com o LP Black Metal.  Depois disso, me surpreendi a primeira vez que ouvi Napalm Death (Scum) e um ensaio do Extreme Noise Terror. Esse primeiro contato com esse estilo até então desconhecido foi tão marcante que lembro como se fosse hoje. O Napalm eu ouvi num programa de domingo, com o Capitão de Aço, Beto Peninha e o E.N.T. e foi de uma fita k-7 que eu peguei de um amigo da Austrália. Esse amigo se chama Alan Moses, que depois mudou pra os EUA e foi ser o responsável pelo fan club oficial do Morbid Angel.  Tenho esse ensaio do E.N.T. até hoje.

3. Pra você, quando se fala em som extremo underground, se inclui Metal, Punk e Noise experimental lado a lado? Pergunto isso porque a maior parte dos veteranos da cena parece não ver problema algum nessa coexistência, embora existam pessoas que neguem essa correlação entre as duas cenas. Qual sua posição a esse respeito?

R: Logo que surge um estilo novo (que já é mistura de outros anteriormente existentes), as pessoas assimilam aquilo e começam a criar em cima e misturar com coisas e estilos antigos.  No fundo, está tudo mesclado, porque se for analisar, as primeiras mais famosas bandas “grandes” experimentais de noise ou industrial foram formadas pelo Mick, do Napalm Death (SCORN, PAINKILLER, etc), e também o GODFLESH e muitas outras...  respondo que sim, elas podem coexistir e são irmãs.

4.  Entrando na questão musical propriamente dita, qual foi sua primeira banda? Você pode contar um pouco mais a história dela?

R: Cara, a primeira banda se chamou Death Angels e foi a única que gravamos algo.  Éramos totalmente inexperientes e pra dizer a verdade eu acho que nem ensaiávamos antes da gravação. Pelo menos não lembro de nenhum dia que eu possa dizer que ensaiei.  O Paulo fazia as bases junto com o baterista, eu fui com as letras e encaixamos as letras nas músicas no dia da gravação. A gente ensaiava  uma vez a música e já gravava. Fomos pro estúdio caseiro de um amigo num domingo de manhã e ficamos o dia inteiro lá gravando.  Esse amigo era o Caio, da banda CURTO CIRCUITO, que estudava na minha classe. 

5. Como foi sua experiência e quais as dificuldades que se encontrava na época do Stench Angels? A propósito, essa banda chegou a gravar algum material? Hoje em dia, parece que não há mais nada da banda disponível em lugar algum...

R: Na verdade, o Stench Angels era o Death Angels, depois da saída do Paulo, que mudou para Bebedouro. Não fizemos nada com o Stench Angels, dois ensaios com um amigo, mas ficou por isso mesmo.  As dificuldades eram encontrar aparelhagem boa e num preço acessível. Naquela época as coisas eram mais caras e nós éramos simples Office boys, ganhando salário mínimo... 

6. Depois dessa banda, ainda na década de 1980, você chegou a tocar com mais alguém? Em caso positivo, qual(is) foi (foram) a(s) banda(s)?

R: Ainda com a formação do Death Angels tocamos três ou quatro shows ao vivo, mas usávamos outros nomes para não “queimar” o nome da banda, já que nossos shows foram bem caóticos. Eu pirava no palco, berrava, xingava todo mundo e falava palavrões e isto não era uma atitude de banda metal, mas sim, de banda punk. Eu só sabia fazer isso e eu não conseguia ter uma “atitude metal” no palco.  Tocamos uma vez com o nome de Iron Hammer e eu pintei um “I” e um ”H” nas pernas da calça, coloquei umas correntes no pescoço e fomos lá fazer barulho... Então, no fundo, éramos uma banda que fez shows como se fossem 3 bandas diferentes.   Mas volto a dizer, a banda nunca ensaiava, e quando tinha ensaio, exceto pelo Paulo e pelo Sérgio, ninguém sabia o que estava fazendo ali (inclusive eu). 

7. Ainda nos anos 80, você teve um dos zines mais importantes do país em termos de popularidade, creio eu, o Rotthenness, certo? Você pode nos contar um pouco da história desse veículo? Quando esse trabalho começou e por que ele terminou?

R: Modéstia a parte, acho que sim, ele foi importante, pois ajudou a divulgação de bandas nacionais no exterior, já que eu fazia o zine em inglês, com a ajuda da minha namorada. Existia a revista METAL e a SOMTRES, onde eu encontrava pessoas e informações. Comecei a corresponder (por carta) com toda banda que eu passava a conhecer e nisso vi que várias bandas não tinham muita divulgação na mídia impressa, então pensei em editar o zine Rotthenness, isso já em 1987, quando saiu o número 1. Segui em frente e fiz mais 4 números, até 1991, quando o zine acabou virando o Selo Rotthenness.

8. Em amplo sentido, quais as diferenças entre fazer um zine naquela época e fazer um zine hoje em dia? Lembro que teu zine buscava trazer matérias com bandas gringas, que eram colocadas lado a lado com as bandas nacionais. Pode-se dizer que, pra você, o underground nacional não devia nada ao internacional ou nem se pensava nisso na época?

R: A captação de material naquela época era muito mais demorada e difícil. Hoje qualquer banda grava e manda por e-mail. Na época ninguém tinha computador, não existia internet, era tudo na carta e muitas extraviavam e as bandas demoravam meses para responder, principalmente as bandas gringas. Sim, eu sempre coloquei as bandas nacionais no mesmo nível das gringas e na verdade, eu dava mais valor pras nacionais, porque eu sabia que ter uma banda no Brasil era bem difícil e as bandas tinham qualidade musical, porém, não tinham muito profissionalismo, porque, na verdade, a cena estava começando a se formar e tudo ainda era muito feito na raça, tipo, vamos organizar esse show e pronto, as pessoas faziam e viam no que ia dar, não existia um planejamento, era bem underground e bem apaixonante, pra dizer o mínimo. A coisa toda era movida por paixão. Lembro que quando se encontrava alguém na rua com camisa de banda a gente parava o cara pra trocar idéia, saber onde o cara morava, se ia no próximo show, etc. A amizade era feita assim, na paixão pela música, não por interesses.  Fui a ensaios das bandas Tormenta,  Krusher, Anthares, porque a gente conhecia um cara que conhecia outro que conhecia a banda, a gente ia lá na cara dura, se apresentava e pronto, conhecia os caras e ajudava no que era possível. Vendo todas essas bandas eu resolvi fazer o zine e fazer também em inglês para poder divulgar as bandas nacionais no exterior.  E isso, ironicamente, foi uma das causas que eu parei o zine, porque no final eu recebia mais material das bandas gringas do que das nacionais e pra mim o zine perdeu seu intuito principal, que era a divulgação das bandas nacionais...

9. E a sua gravadora, também chamada de Rotthenness, quando ela começou e o que o levou a entrar nesse mercado na época? Você pode falar um pouco das dificuldades de manter um selo no começo da década de 1990?

R: Por que eu pegava material de bandas que eu achava ótimas e que não tinham nada lançado oficialmente, apenas demos ou ensaios e então, eu pensei, já que ninguém lança essas bandas, eu mesmo vou lançar e ai comecei o Selo Rotthenness Records (que todos chamam de gravadora).  A dificuldade era que a divulgação que se fazia através de flyers e cartas, porque eu não tinha dinheiro para fazer propaganda em revista e também não queria isso, afinal underground é undeground, não é mainstream...  Então a divulgação era bastante demorada e eu escrevia cartas TODOS os dias e fazia toneladas de flyers na base do xerox e enviava pra todo mundo divulgar.  Com os lançamentos, ficou mais fácil, pois eu mandava os eps pra todo lugar do mundo que me contactasse e isso divulgou a ROTTHENNESS.

10.  Acho que uma das características mais marcantes do selo era lançar bandas de estilos diferentes sem pudor algum. Pra mim, parece que todo mundo ouvia o som extremo como uma coisa só, sem haver uma subdivisão maior entre Death Metal, Black Metal, Grindcore, HC, Punk ou Noise. Essa era também a orientação da gravadora?

R: Sim, eu lançava bandas extremas, não interessando o estilo, afinal underground é underground, devemos nos unir e não nos separar.  A orientação era lançar bandas honestas e que faziam um som que me agradasse, não importando o estilo. Obviamente isso é totalmente anti-comercial, uma gravadora sem estilo definido, mas era isso mesmo o que eu fazia..

11.  Qual era o critério adotado para lançar uma banda, considerando que o Rotthenness lançou bandas que eram totalmente obscuras no Brasil na época, como Barback e Dicktator, por exemplo? Normalmente, eu lembro que os selos lançavam as bandas que caíam no gosto do seu dono, pois não havia uma relação comercial nessa escolha, mas sim um critério pessoal. Com a Rotthenness também era assim?

R: Exatamente. Eu lancei as bandas que eu gostava, era totalmente pessoal a minha escolha.  E tinha que ser banda que estava começando...

12. A Rotthenness foi pioneira em lançamentos de bandas Grindcore no Brasil, certo? Afinal, você lançou Necrose, Rotting Flesh, Sarcastic e Purulence...O que te levava a investir tanto nas bandas brasileiras numa época em que o underground estava mais voltado para o Black Metal?

R: Acho que sim, fui pioneiro, mas o selo FUCKER já tinha lançado o primeiro EP do ROT, senão me engano, mas foi na mesma época que lancei o Dicktator, meu primeiro lançamento, mas eu continuei lançando e o Leandro parou o selo Fucker.

Cara, o gosto pelo barulho e pelas bandas nacionais, simplesmente isso, me impulsionava.

13. Sendo o Rotthenness um selo sem filiação religiosa e dedicado às bandas mais extremas, como ocorreu o lançamento do split Zen Garden/Antidemon? Houve alguma polêmica envolvendo esse lançamento, sabendo que essas bandas praticam white metal, estilo que causa verdadeira ojeriza para 99,9% dos headbangers e punks?

R: Na verdade, esse foi um cd que fiz em parceira com a loja/selo DESTROYER, que também era uma loja aqui em São Paulo e lançou vários outros CDs, inclusive Genocídio,  Torture Squad e outros. Esse split era pra ser Antidemon com o NYAB, mas acabou não acontecendo.   Sim, houve alguma polêmica, como sempre, mas a maioria da prensagem desses CDs ficou com a DESTROYER e não comigo. Inclusive, a DESTROYER fechou, agora mudou de endereço e virou loja de instrumentos musicais.

14. Você chegou a anunciar o fim do selo há algum tempo atrás e venda de todo o material. Isso teve alguma relação com o advento e crescimento da internet. Qual sua opinião acerca da polêmica envolvendo os downloads e esse papo todo de pirataria no meio underground?

R: Realmente o mercado ficou uma bosta e a internet contribuiu para isso e o advento do cd também. Acho que foi tudo junto e eu fui morar com minha esposa e não tinha espaço para guardar o material e eu precisava me desfazer de muita coisa.   Quanto ao download acho que se o material ainda existe na forma física, não deveria existir o download.. este deveria ser feito apenas para material que não existisse mais fisicamente e apenas liberado pelas bandas, não por qualquer pessoa...

15.  Apesar de ter anunciado esse fim, o selo ainda lançou o último CD do New York Against the Belzebu (NYAB) em 2012. Isso quer dizer que novos lançamentos podem ser esperados?

R: Esse relançamento do primeiro cd do NYAB foi feito pela TERCEIRO MUNDO, do amigo Alexandre Casalunga e não pela ROTTHENNESS.  Eu quero reviver o selo, mas não agora, pois não tenho tempo disponível e ainda preciso definir outras prioridades na minha vida.  Porém, devo lançar um livro falando do NYAB ano que  vem, 2014, ano que completaremos 20 anos de NYAB. Pretendo falar de toda a história da banda com fatos pitorescos e interessantes e fotos inéditas, tudo juntamente com um cd surpresa, que nem eu sei ainda o que vai ter.. . HAHAHAHAHA...

16. A propósito, poderia falar um pouco sobre o NYAB, sobre o seu direcionamento musical, seu início, seus lançamentos etc.?

R: Iniciei a banda em 1994 e em 1995 lançamos o primeiro EP, o split com o PURULENCE. E seguimos tocando e lançando material, alguns pela ROTTHENNESS e outros por selos que se mostraram interessados, de vários países, como Japão, Bulgária, EUA, Alemanha, Equador, etc.  Sempre tocamos grindcore, mas alguns lançamentos ficaram mais puxados para o noise e outros para o Crust/Grind. Na verdade, só existe eu da formação original e fiz vários lançamentos com formações diferentes, ou seja, num mesmo momento a banda existia com duas (ou três) formações diferentes, e quando tinha show eu tentava juntar todo mundo.  Se algum integrante não podia vir na gravação eu chamava outro amigo par se juntar a nós.   Fizemos um show que o baixista não apareceu, então, pegamos um cara da platéia e ele tocou baixo pra gente na hora.  Depois efetivamos ele com guitarrista e ficou com a gente uns três anos.  Simples assim. Costumo dizer que o NYAB é um celeiro de músicos... HAHAHAHA .  A lista dos nossos lançamentos é:

NYAB/PURULENCE - SPLIT EP 1994

NYAB - ARE YOU READY FOR NOISE ? CD 1995

NYAB/FINAL EXIT - SPLIT EP 1996

NYAB/VIOLENT HEADACHE TAPE 1996

NYAB - TRIBUTO A ANA - TAPE 1997

NYAB - STUNT - CD 1998

NYAB - STUNT/TRIBUTO A ANA - LP 1998

NYAB/AGATHOCLES/IRRITATE - CD 1998

NYAB - BATERIA E BAIXARIA - CD 1999

NYAB - BYE BYE PITTA - CD-R 2000

NYAB - FROM ENDORSEMENT - CD 2000

NYAB - É O FIM! 2.1 - DOUBLE - CD 2000

NYAB - ESFIHA BOMBS - CD-R 2001

NYAB/EMPTY GRAVE/PURE NOISE - CD 2002

NYAB - OS PE DE BARRO (6 BANDS) - CD 2002

NYAB/MEATKNIFE/DEPRESSION/I.INFECTION - CD 2003

NYAB/SORE THROAT - SPLIT CD 2003

NYAB - PUNK AS FUCK AS.... CD-R 2003

NYAB - ARE YOU READY FOR NOISE ? CD-r 2012

NYAB - RETRATO DO BRASIL CD-r 2012

NYAB - SE VOCE QUER BARULHO... FLEXI EP 2012

NYAB/GORGONIZED DORKS - SPLIT EP – 2012

NYAB/AGATHOCLES – SPLIT EP 2013

E os próximos lançamentos serão:

NYAB/DECHE CHARGE - SPLIT EP (em junho/2013)

NYAB/NUCLEAR FROST - SPLIT EP (em junho/2013)

17.  Você sente alguma resistência ou preconceito por parte de outras tendências do underground por tocar Noisecore? Afinal, além de fazer um tipo de som que, hoje em dia, não goza do mesmo prestígio do final da década de 1980 (embora eu seja um fã inveterado do estilo), o NYAB ainda apela para o humor, o sarcasmo e a ironia constantemente, elementos vistos com certa desconfiança por certos segmentos do underground, que acham que essa postura bem-humorada e som extremo não combinam. O que você acha disso?

R: Quando eu criei a banda, pensava em fazer uma banda que todos odiassem, mas como sempre foi um trabalho honesto e de coração, perduramos até hoje, apesar de críticas e muitos boicotes de shows. Conheço gente que comprou nosso primeiro split e riscou com faca o lado do NYAB...  você acredita nisso ? Desde e (principalmente) quando começamos, sofremos muita crítica justamente por causa do lado “divertido” do NYAB.  Acho que os críticos sentiram-se incomodados pelo NYAB não se encaixar na “cartilha” do grind politicamente correto. Fiz uma musica sobre este assunto no primeiro CD, a música se chama RADICAL GRINDER FASHION e expressa exatamente meu pensamento sobre essa questão. Acho que muito não entenderam a ironia e o sarcasmo das letras. Achei ótimo ser criticado, afinal o NYAB era pra ser odiado mesmo, mas ao mesmo tempo o fato de que as bandas dessas mesmas pessoas que nos criticaram serem meras cópias de bandas gringas também me deixou puto, mas eu nunca critiquei ninguém, pois cada um faz o que quer, não é esse o lema do underground e da liberdade de expressão da filosofia grind/punk ? Sempre fiz a banda para agradar a mim, não aos donos da cena.  Talvez seja por isso que o NYAB está vivo até hoje e 99,9% dos críticos da época nem curtem mais grind e nem estão mais na cena. Também existiam várias bandas sérias que levavam a atitude noisecore ao extremo, (que eu acho muito válido), então cada um segue seu caminho. Não tenho rancor de ninguém, respeito a opinião de cada um que me criticou, e até agradeço a eles por expressarem suas opiniões referentes ao NYAB.  Todas estas (e muitas outras) histórias estarão no livro.

18. Depois de tantos anos envolvido com esta cena underground, o que o mantém ligado a ela e o que você gostaria que não houvesse no nosso meio?

R: A paixão pela música é o que me mantém vivo e na cena até hoje. Eu não gostaria de ver certas competições entre as bandas e a inveja de uns poucos, mas se tratando do ser humano, não tem muito o que fazer, pois cada um age de acordo com seus pensamentos e eu não sou o dono da verdade...

19. Completando a pergunta anterior, vale a pena ainda manter essa relação com a música extrema e os meios alternativos de produção cultural? Por quê?

R: Sim, e o motivo é porque eu ainda curto som e quero sempre saber o que está acontecendo... e gosto de fazer isso.

20. Por fim, Nelson, há algo que você gostaria de comentar, algo que não perguntei e que você acha importante colocar? Fique à vontade para expressar suas últimas palavras e deixar um recado.

R: Só tenho a agradecer a você, Cristiano, pela entrevista e dizer que o NYAB está na ativa, lançando vários eps com material inédito. Apenas me escrevam e solicitem catálogo, pois ainda tenho bastante material da ROTTHENNESS para vender e trocar...  e em 2014, cd com livro...   Abraço.   

Contatos: nyab@ig.com.br e  black6666@ig.com.br

 
Postado por Cristiano Passos às 08:41Hs - Comentários (2)

 

Nos últimos anos, o meio underground tem acompanhado o crescimento vertiginoso de publicações alternativas sobre o Punk ou o Metal, como livros e, mais recentemente, documentários contando a sua história ou teorizando a respeito das cenas, gêneros e subgêneros. Claro, a “cena” envelheceu, seus membros desenvolveram outros interesses e atividades e resolveram fundi-los com o que sabiam sobre o underground, além de hoje termos uma maior distanciamento em relação aos fatos ocorridos nas décadas de 1980 e 1990, distância suficiente para que se possa entender sua importância e seu impacto, tanto em termos pessoais quanto na cultura em geral.  

 

Dentre esses novos lançamentos, fui presenteado com um documentário excelente chamado “Fanzineiros do Século Passado”, de autoria de Márcio SNO e lançado em 2012. Digo “excelente” pra simplificar os elogios, porque o documentário, pra quem vive ou viveu a cena underground, representa muito mais que isso: é um registro histórico sobre uma cultura marginal que “criou” muita gente. 

 

E o mais legal é que, em plena era digital, “Fanzineiros” resgata a história do zine de papel, que hoje em dia anda dando suas caras novamente, o que é muito saudável para a cena, mas não esquece de citar também os blogs e webzines, apresentando uma visão menos radical. Afinal, de ambos os lados, há defensores aguerridos e intransigentes, mas que acabam colocando suas preferências acima do que realmente importa: a distribuição democrática da informação.  

 

Como mencionam alguns dos entrevistados, o que sempre motivou as pessoas a fazerem zines, sejam eles de papel ou virtuais, foi a necessidade de se comunicar e passar adiante informações que a grande mídia não faz questão nenhuma de divulgar, com uma liberdade de expressão inimaginável nos domínios da informação enlatada. Como se sabe, a cultura underground é muito rica, mas nunca dependeu dessa chamada grande mídia para existir: praticamente tudo que ela produziu foi espalhado no submundo por algum fanzineiro, que o fazia (e ainda o faz) com a intenção de levar para os seus amigos e conhecidos informação independente e sem censura que, de outra forma, não circularia jamais. Afinal, assim como as bandas underground existem, acima de tudo, pelo prazer de fazer um som, os zines também devem sua existência ao prazer de poder, sem a mediação de um patrocinador ou de algum conglomerado midiático poderoso, divulgar as bandas, filmes e livros dos quais seu editor gosta e está a fim de divulgar. E ponto final!

 

Dessa forma, Márcio SNO mostra o papel fundamental dos zines na criação de uma cena ainda mais forte, entrevistando gente como Juninho, do Corpse Grinder, por exemplo, que ressalta a importância desse tipo de divulgação para as bandas independentes. Como diz um dos entrevistados a um dado momento, as bandas não existiriam sem os fanzines, afirmação com a qual concordo plenamente, pois, como assegura o mesmo Juninho, ver o material da sua banda publicado ou em uma entrevista ou resenha é algo totalmente estimulante. 

 

Mesmo as bandas mais radicais do undergroud topam sair em alguma página de fanzine, já que a condição de independência dos zines faz com que estes sejam encarados como veículos de comunicação confiáveis e autênticos, ao contrário das grandes publicações, cuja atmosfera “mainstream” (anúncios grandes, parcerias com lojas e gravadoras conhecidas, além do visual “clean” e colorido demais, destoando do aspecto artesanal dos zines e do preto e branco tradicional) não interessa a quem vive nos porões da música extrema.

 

A propósito, vale ressaltar que o documentário mostra fanzineiros de outros gêneros além do metal e da música em si, já que a história dos zines vai muito além do nosso meio e o que todos eles têm em comum é o fato de lidarem com algum assunto marginal ou underground e, como afirma um dos entrevistados, o “faça você mesmo”. Dos fanzineiros que trabalham com o metal e o punk, destaca-se a participação da equipe do saudoso Putrid zine, de Rikardo Chakal, do Visual Aggression, e de Fellipe CDC (no primeiro capítulo do documentário, que vem junto no DVD), verdadeira lenda da cena que editava, na década de 1980, o aclamado zine Metal Blood, que pra mim tem um valor simbólico e afetivo muito grandes, pois foi primeiro fanzine impresso que eu conheci na vida, lá em 1988! E é muito legal saber que todo aquele esforço feito pelo jovem Fellipe há tantos anos atrás foi tão marcante que até hoje ele é referência na área da comunicação alternativa e independente. 

 

Aliás, de todo o documentário, o que mais se destaca é exatamente essa força de vontade de todos aqueles que construíram essa cena, seja ela em papel ou na internet, pois os entrevistados são unânimes em afirmar, ao fim do vídeo, o quanto essa experiência de produzir zines foi muito importante em suas vidas e o quanto eles o fazem por paixão, nada mais além disso. “Dá pra dividir a vida em antes e depois do zine”, diz Daniel Villa Verde, do zine Nuclear Yogurte.

 

Então, pra quem ainda não viu, vale muito a pena ir atrás de “Fanzineiros do Século Passado”, que é um registro muito bem produzido de uma parte da história do underground, apesar de todas as dificuldades apontadas pelo seu autor, que não ganhou nada para realizar o documentário, mas mesmo assim fez um puta trabalho. E aguardem que, em abril, no III Ugra Zine Fest, Márcio SNO promete o lançamento do terceiro capítulo dessa incrível saga zineira.  100% recomendável!

 

 

 
Postado por Cristiano Passos às 18:09Hs - Comentários (0)


Perfil de Cristiano Passos

Nascido em 1973, em Florianópolis-SC, encarnado em som underground desde 1987. Foi vocalista de bandas como Necrobutcher e Subversive Reek Mute Perturbation (SRMP), além de ter participado de diversos projetos paralelos entre 1989 e 1993. Atualmente, é baterista da banda Antichrist Hooligans e atua como rato dos porões do underground, buscando manter vivas as vozes do submundo extremo de outrora.






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